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  • Restauração Cultural

Ideias nucleares

Atualizado: 15 de Dez de 2019

Um livro não se mede pelo seu tamanho, a menos que se trate de um comércio de papel para reciclagem.


Uma obra é uma compactação de conceitos e ideias, e quanto mais clara e poderosa a mente do autor, menos páginas ele precisará para gravar na mente do leitor o que realmente importa.


Esse fato é detectável tanto na literatura quanto no ensaio. Não que um "Moby Dick" ou um "Don Quixote" não divirtam e encantem, mas se excetuarmos os mentirosos e os intelectuais autênticos, teremos de convir que ninguém mais lê de ponta a ponta essas obras enormes.


Algo nessas obras desperta no leitor contemporâneo uma sensação de desperdício, quando não uma sensação de tortura; e nem sempre essas sensações têm a ver com má formação. Muitas vezes, é apenas o desejo do leitor de sentir o poder de compactação.


Claro, tem os autores contemporâneos que fizeram fortunas publicando tijolos. Porém, este fenômeno se distingue dos clássicos pelo vazio que representa, embora, na superficialidade, a existência desses tijolos pareça destruir a tese aqui apresentada.


Porém, vejam o "Grande Gatsby", um dos maiores romances da literatura ocidental. Obra magnífica, densa e, no entanto, curta; e tão curta a ponto de muitos preferirem chamá-la de "novela" ou "romance curto". Mas há em "Gatsby" um mundo tão ou mais rico do que há na imensa maioria dos romances de centenas de páginas.


Para dar um exemplo fora da literatura, o livro fundador do Direito Penal moderno, o "Dos Delitos e das Penas", de Cesare Beccaria, tem apenas 130 páginas. No entanto, ao lê-lo se tem a sensação que lemos um livro de 500 páginas, tal a profusão de ideias e reflexões sólidas; e a leitura é muito prazerosa, pois Beccaria escrevia muito bem.


Para entender a arte da escrita, é preciso perceber que a força não vem exatamente das palavras, mas do poder das ideias nucleares que povoam a mente de quem escreve.


Autoria de Marco Frenette.


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