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  • Restauração Cultural

A arte da militância

Atualizado: 15 de Dez de 2019

Votar não é política: política é militância.


Quando se xinga alguém, no momento da exaltação, há uma grande possibilidade de se expor, desnudando para o público juntamente com seu modo real de ver e compreender o mundo, os seus mais implacáveis medos, sórdidos desejos e inconfessáveis preconceitos. Até certo ponto é descartável o psicológico da pessoa numa discussão em que se busca focar em coisas e assuntos. O que interessa é o conhecimento... ou a falta dele, como se vê, por exemplo, na atual discussão em que aquela parte da "direita" chamada popularmente de isentosfera alcunha como "petistas" os defensores do atual Presidente. Quais implicações podem ser tiradas dos rotulados e dos rotuladores?


Xingar é um ato deveras humano: só nós fazemos isto no reino animal. É uma ação quase que totalmente vocal. Claro que há milhares de gestos, mas eles não passam de símbolos performáticos da força anímica que encontra condensada nos xingamentos e impropérios. O palavrão, que me perdoem o clichê, demonstra a força da palavra. Quando se xinga, busca-se inspiração naquelas coisas mais detestáveis no meio social em que se vive e, na mentalidade em voga no Brasil, petismo é sinônimo de roubalheira, safadeza ideológica e pilantragem política. Para os que buscam e desejam algum futuro para o país, é um avanço considerável e eu mesmo torcia há anos para que isto acontecesse, pois sabia que muita coisa iria mudar. Mas não é isto que os isentões querem enfatizar. Para eles, a defesa inconteste e a sanha combativa em prol de Jair Bolsonaro são atitudes dignas de um petista. E tenho que dizer: é verdade, mas bem longe de ser um defeito ou algo execrável, para o bom entendedor do que é política de verdade e estuda o comunismo, é um baita de um elogio.


Entenda: política é militância. Não se faz política quando a pessoa sai de casa com o título nas mãos para enfrentar uma fila e votar em um candidato: faz-se política após o voto, ajudando o seu representante que foi eleito e pressionando os demais políticos para que apreciem e aprovem suas causas, bandeiras e projetos. E o único grupo que faz desde o começo do regime militar é o da esquerda. Só a esquerda sabe fazer política. Política é poder, e poder é capacidade de pressionar o outro, e só se faz isto com pessoas. Eis a militância.


Com as grandes manifestações populares e o aparecimento de um candidato defensor das pautas do brasileiro médio, o povão, que historicamente ficava totalmente alheio e indiferente ao que acontecia após a eleição e durante o governo, ingressou de vez na discussão pública e no combate político, tentando fazer valer sua vontade. Claro, tudo de forma confusa, afobada e exasperada, sem contar o tanto de desorientação e de desmotivação proporcionadas por inúmeros proxenetas e oportunistas que pipocaram dentro do movimento popular. Mas, mesmo assim, o povo se faz presente.


Estas pessoas não são uma militância propriamente dita, mas uma massa desorganizada, heterogênea e amorfa sem um centro de liderança real que conseguiu enxergar as coisas mais ou menos como realmente são e se uniu em torno de bandeiras comuns. Neste meio tempo, uma pessoa tomou para si o papel de politicamente representar as bandeiras desta massa, funcionando, como explica a filosofia política do professor Olavo de Carvalho, como símbolo aglutinador, ou seja, um indivíduo que personifica as bandeiras e a essência das massas e é visto como seu representante, mas não um líder. Liderança, como ensina Olavo, é controle estratégico das ações e isto só é possível com um movimento organizado, coisa que não somos e não estamos procurando ser, infelizmente. Bolsonaro é o defensor de causas que não possui estrutura organizacional para lhe oferecer respaldo. Ele está sozinho diante de megaestruturas organizacionais com poder de ação, militância e suporte financeiro — o que deixa claro e evidente a atitude covarde de criticar o Presidente, fazendo coro com estas megaestruturas de poder, apenas para posar de moderado e independente.


Insisto, militância é política. Os petistas dominaram a Igreja Católica, a grande mídia, as universidades e escolas, o meio editorial, grande parte do funcionalismo público, os sindicatos e associações comunitárias e parte considerável do judiciário e do ministério público, o show business e criaram inúmeros movimentos sociais que abarcam quase a totalidade da produção cultural e da cultura popular. Chame-os do que quiser, mas os petistas em matéria de política e de hegemonia cultural são competentíssimos, são mestres e exemplos a serem copiados. Querer negar isto é prova inconteste de imaturidade intelectual e atestado de incapacidade para opinar sobre nossa situação.


Eis uma das grandes verdades que podemos tirar de tudo que foi dito até agora. A nossa situação não irá melhorar apenas com Bolsonaro como presidente, pois ele precisa de força para fazer valer aquilo que defendemos e esta força não vem da atuação de políticos, mas dos militantes e dos intelectuais. Em outras palavras, está bem claro hoje que o Estado brasileiro foi concebido para barrar a vontade popular e impor as reivindicações da elite e das esquerdas. Mesmo o Lula não passava de um office boy de decisões já tomadas. Mas, ao contrário do capitão, ele possuía um sistema por trás que escutava suas recomendações, o que torna o maior ladrão da história da humanidade em um líder político.


Xingar é ao mesmo tempo uma arte e uma arma. Os anjos caídos usam suas maldições (mal-dizer, falar) para criar abismos entre os homens e o Criador, enquanto os companheiros do Arcanjo Miguel bendiziam para orientar os filhos de Deus. Porém, quando mal usados, expõem a fraqueza e as limitações do indivíduo. Petista é sinônimo de pilantragem, é verdade, com também é sinal de sucesso político e de império cultural. Portanto, se o povão agisse como petistas teríamos hoje uma democracia de fato e de direito porque haveria forças antagônicas mais ou menos se equilibrando. Haveria universidades de direita, jornais de direita, sindicatos de direita, partidos de direita e militantes de direita. Ah, que bom seria a existência de petistas invertidos...


Autoria de Flávio Lindolfo Sobral.


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