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  • Restauração Cultural

I like America, America likes me

Atualizado: 24 de Dez de 2019

Mesmo com tantos inimigos, a América permanece a terra da liberdade, amada e desejada por muitos.


Beuys como piloto da Luftwaffe

Tendo sido piloto da Luftwaffe, divisão aérea da Wehrmacht durante a Alemanha nazista, Joseph Beuys agregou a sua automitologia a história da queda de seu avião na Criméia, sendo salvo por um povo tártaro e por ele cuidado com feltro e banha de animais, material que incorporou a sua obra escultórica. Este e outros mitos de sua vida foram desmontados pela biografia escrita por Hans Peter Riegel, Beuys — Die biographie, que, ao pesquisar sua vida, descobriu que a referida queda foi apenas um pouso forçado.


Beuys via-se como escultor e atuou no movimento Fluxus nos anos 1960, tendo distanciado-se cada vez mais do grupo informal, tornando-se um artista independente. É dele a afirmação “todo homem é um artista” — hoje traduzida para “toda gente é artista” por desconhecimento de que a palavra homo, no latim, deriva de humus, terra, em oposição ao deuses que vivem no céu —, pois defendia que a obra do artista devia ser a sua vida, justificando, assim, o uso de material insólito em suas esculturas, derivadas das assemblages dadaístas, como os já citados feltro e banha e, em uma delas, o uso do espelho retrovisor do carro em que sofrera um acidente.


Fonte: Kids of Dada

Dentre suas performances mais famosas está I like America, America likes me, ocorrida na René Block Gallery, Nova York, em maio de 1974. A performance começa antes de adentrar o espaço da galeria: em sua primeira viagem à América, é retirado do avião envolto em feltro, sobre uma maca, e levado de ambulância até a galeria onde um coiote selvagem o aguarda. No período de três dias, Beuys interage com o animal que se torna cada vez mais dócil, a ponto de aprender a defecar e urinar sobre os cinqüenta exemplares novos do Wall Street Journal solicitados pelo artista para a performance. Trecho da performance pode ser vista neste vídeo.


O movimento Fluxus, assim como outros das décadas de 1960 e 1970, deixa de apresentar um estilo, de fazer parte de uma sucessão de estilos, dando continuidade ao que havia sido feito no Dada, a partir de 1916, e retoma a “arte engajada”, um tipo de arte voltada para a crítica social com viés esquerdista e a clara determinação de modificar a sociedade. Como Beuys se via como um xamã, suas performances eram rituais — inventados por ele, não tradicionais como o de culturas primitivas — e, ao utilizar-se de objetos que acreditava ter poderes mágicos e terapêuticos, fazia deles a representação da metáfora que moldaria a mundo. Assim foi a performance que Beuys apresentou na América.


O coiote americano é um símbolo daquele país e daquele povo pelo seu espírito indomável, sua força e sua independência, daí Beuys desejá-lo para seu ritual performático. Ao chegar e sair da América envolto no que acreditava ter poderes mágicos de proteção, uma manta de feltro, sem tocar o solo do País, Beuys deixa clara a metáfora de seu rancor: a derrota na guerra. Diferente de outros nazistas que posteriormente ocultaram a situação comprometedora, Beuys nunca escondeu sua participação ativa na guerra, nunca cortou relações com os que permaneceram fiéis ao nazismo e, segundo Riegel, nunca se arrependeu de ter queimado livros de autoria de judeus e contrários ao regime, manteve suas idéias e com elas foi um dos fundadores do Partido Verde alemão.


Nos três dias de convivência com o coiote selvagem caçado e levado para um ambiente em nada condizente com seu habitat — o que diriam os greens, hoje? —, o animal paulatinamente foi amansado. Metáfora perversa — ou ressentida — sob a visão do xamã, pois indica que o espírito indômito da América foi domado a ponto de fazê-lo urinar e defecar sobre a metáfora do capitalismo, The Wall Street Journal, mas antes de ser metáfora ou performance, Beuys acreditava ser um ritual que submeteria a América sob os aplausos da esquerda americana.


Fonte: Kids of Dada

Aquele coiote, embora símbolo, não é o povo americano e nem sua história de conquistas; como qualquer animal, é capaz de aceitar a convivência com outras espécies e, diferente do artista, mostra o outro lado ocultado pela arte engajada: que a América convive e abre seus braços para quem amá-la sem submetê-la, não importa quantos rituais sejam feitos à guisa de arte para expressar o totalitarismo das idéias de destruição da tradição.


Long live, America!


Autoria de Lucília Coutinho




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