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  • Restauração Cultural

O sono da razão

Atualizado: 24 de Dez de 2019

A Revolução Francesa, que completará 230 anos, na visão de quem a viveu.


Goya (Francisco de Goya y Lucientes, 1746-1828) foi um entusiasta da revolução francesa porque, embora pintor oficial da corte espanhola, não apreciava seu governo e acreditava que o experimento francês traria liberdade, igualdade e fraternidade a todos. Veio o império napoleônico que aterrorizou a Europa, chegando a enlouquecer de medo dois monarcas: George da Inglaterra e Maria de Portugal.

Esta pintura cujo título já elucida bastante coisa, O Três de Maio de 1808: A Execução dos Defensores de Madri (pintada em 1814, encontra-se no Museo del Prado, Madri), é do Romantismo que ocorre paralelamente ao Neoclassicismo francês, e sua execução formal (linhas, cores, jogos de luz, sombra etc.) difere bastante do que se costumava considerar uma pintura de qualidade dentro dos cânones defendidos pela pioneira Real Academia Francesa de Arte. As figuras são proporcionais, mas em nenhum momento prima pelo hiper-realismo pictórico que esperamos das pinturas, pois aqui Goya usa os elementos formais como símbolos que nos permitem ler a obra.


Ao fundo, a cidade, com seus edifícios de onde sobressai a torre da igreja, está mergulhada nas trevas. Nenhuma luz vem de lá. A cidade, “civitas”, é onde começa nossa civilização. Foi com a reunião de pessoas que traçamos o caminho ao longo dos séculos, com troca de experiências, idéias e muitos embates. Aqui, a cidade está morta. Ou, no mínimo, dormente. A igreja, ainda aparente, recortada contra o fundo, totalmente apagada. Toda a cena se passa em primeiro plano, fora da cidade, longe do mundo civilizado para o qual nenhum personagem olha.


Na parte direita, enfileiram-se os soldados franceses. Todos de costas, formam uma linha diagonal que sempre sugere instabilidade e é uma característica recorrente da pintura romântica. Não se vê nenhum rosto, pois a violência não tem rosto desde os mitos gregos: Prometeu, na tragédia de Ésquilo, ao ser acorrentado ao Cáucaso por Hefestos por justamente ter incorrido na ira de Zeus, é acompanhado todo o tempo pela Violência que tem o rosto coberto (da justiça que tem os olhos vendados para a violência que tem o rosto coberto, basta um deslize). Os soldados apenas fuzilam e – eles também – estão na penumbra. A propósito, vivemos tempos em que rostos cobertos têm sido deveras comuns.


Do lado direito, estão os fuzilados e os condenados. Homens mortos ao chão, um aflito frei franciscano a rezar, outro que cobre o rosto ante o horror. Em destaque pela luz, o próximo a morrer. Morrer em pé e de braços abertos, entregando-se em sacrifício. A nossa civilização nasceu com alguém que também morreu de braços abertos e entregou-se em sacrifício com toda sua inocência. A pintura, assim como a literatura, é repleta de citações. Basta-nos demorar os olhos sobre ela e encontrar os links para outras histórias que lhe servem de referência.


No centro da pintura, parcialmente encoberta pelos soldados, uma lanterna em formato cúbico. No Renascimento, os tratadistas identificaram o círculo com o divino, pois não tem começo nem fim, o quadrado como a forma da matéria e da razão, criação puramente humana, e o triângulo como a forma da estabilidade, do humano. O cubo cheio de luz, portanto, é a razão que autoriza a cena. Que razão é esta? Aquela que nasce pouco antes da revolução francesa, fomenta-a e acredita que a humanidade pode ser aperfeiçoada e reformada para um trabalho conjunto rumo ao paraíso terrestre.

Entre as gravuras do artista há El sueño de la razón produce monstruos (O sono da razão produz monstros) de 1799, da série Los Caprichos, antecipando o entendimento deste cubo iluminado. Em seus delírios de grandeza, a razão humana que despreza toda a transcendência e toda experiência anterior, i.e., a civilização, produziu monstros que Goya jamais ousou sonhar. Ele não foi um profeta dos fatos, mas foi um observador da natureza humana corrompida ao se iludir com o poder sem limites.

Postado originalmente em 12 de novembro de 2016, em meu perfil no Facebook; com adaptações.

Autoria de Lucília Coutinho





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